BLOG PARA DIVULGAÇÃO DA LITERATURA RUSSA AOS FALANTES DE LÍNGUA PORTUGUESA.

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Aleksandr Serguêievitch Púchkin (1799-1837) é, sem sombra de dúvida, o favorito da Rússia. Sempre que anuncio a meus amigos russos a leitura de um novo livro, eles me dizem "Leia Púchkin, tal e tal obra! Você vai adorar". Dizem que ele fala a língua do povo, transmite o sentimento do povo russo em seus versos. Infelizmente nem sempre posso seguir o conselho, porque não é tão fácil encontrar traduções de Púchkin para português, especialmente traduções que mantenham as características do original. Isso se deve ao fato de que Púchkin escrevia, primordialmente, poesia (há contos também, mas não tão brilhantes quanto as obras poéticas), e com métrica e rimas impecáveis. Se a prosa russa já é complicada de ser traduzida (colabora pra isso a triste escassez de tradutores), a poesia nem se fale. E as obras extensas ainda não ousei ler no original.


Mas esse ano tive a sorte de conseguir por as mãos em duas das principais obras de Púchkin: a peça teatral "Boris Godunov" (que ficará para outra ocasião) e "Eugênio Oneguin: um romance em versos" (Евгений Онегин: роман в стихах), que pode ser considerada sua obra-prima. E merece o título.

A HISTÓRIA

Serei breve para não dar spoilers (embora o livro tenha quase duzentos anos). Eugênio é um rapaz mais ou menos rico, que atirou-se em prazeres carnais, teve todos os que quis, e que ainda jovem (no final do livro ele tem 26 anos, e alguns anos se passa no decorrer da história) entediou-se da vida. Foi se isolar no campo, onde seu vizinho, o poeta Vladimir Lenski - uma adorável criatura sonhadora de 18 anos -, o introduz à família de sua namorada/noiva Olga Lárina. A irmã mais velha de Olga, Tatiana, é uma moça introspectiva e sonhadona, devoradora de romances, e um tanto supersticiosa, conforme se descobre no decorrer do livro. Ela vê Oneguin e se apaixona à primeira vis(i)ta, e na mesma noite escreve-lhe uma carta de declaração. Eugênio fica um pouco tocado pela carta e não se aproveita da situação, dizendo honestamente a Tatiana que não quer nada com ela. O tempo passa, desastres acontecem, Tatiana se casa e, ao vê-la em Moscou brilhando na sociedade, Oneguin se apaixona por ela. Manda-lhe cartas. Tatiana então, num encontro casual entre os dois, rejeita-o definitivamente com as marcantes palavras:

"...Amo-vos, sim (como fingir?)
Mas fui a outro já cedida:
Ser-lhe-ei fiel por toda a vida."

A OBRA

Púchkin escreveu este livro durante oito anos, de 1823 a 1831, enquanto viajava no exílio. Por isso há no livro - especialmente em uma espécie de epílogo chamado "Fragmentos de Viagem de Eugênio Oneguin" - retratos de algumas cidades russas por onde o autor passou no decorrer da elaboração do livro. Este excerto final só saiu na terceira edição, de 1837, versão final que até hoje é usada nas traduções (a primeira é de 1833).
Há quem considere haver um tanto de autobiográfico em Eugênio Oneguin, na obra como todo e em especial no personagem. Púchkin de certa forma teve um estilo de vida parecido com o de seu personagem principal, e talvez por isso se mostra afeiçoado a Eugênio, apesar dos vícios que lhe reconhece. É interessante que essa análise já parece ter sido feita pelos contemporâneos do autos, já que em um trecho do livro ele se defende contra isso.

Capítulo Um [...]
LVI 
Vida campestre, amor, lazer,
Campos! Minh'alma já vos dou.
Eu sempre digo com prazer
Que a nosso Eugênio igual não sou,
Para que irônico leitor,
Como talvez um editor,
Não vá de aleive ir-se servindo,
Os traços meus bem conferindo,
E sem pudor assoalhar
Que eu desenhei o meu semblante,
Qual Byron fez, bardo arrogante,
Como se agora, em poetar,
Grande prazer não encontrasse
Quem sobre si não versejasse.

Para além do personagem principal, Púchkin coloca em seu livro um evento que antecipou seu próprio fim - uma morte em duelo. O autor russo faleceu num duelo contra um francês amante (ou pelo menos enamorado) de sua esposa, defendendo a honra da zombaria pública. Essas ironias, curiosamente, acontecem com os escritores; Oscar Wilde também parece ter previsto seu próprio fim na relação entre Basil e Dorian Gray no livro homônimo.
Mas voltemos a Oneguin.
Eugênio e Tatiana podem ser considerados, respectivamente, retratos de tipos comuns em sua época, dentre as classes mais abastadas não só da Rússia, mas de toda Europa: o garanhão entediado (bastante baseado em Byron, que Púchkin visivelmente admirava e refere várias vezes na obra) e a jovem sonhadora, iludida pelas novelas que devora. Ao mesmo tempo, eles também têm um quê que representa os jovens russos em especial, especialmente Tatiana em sua impulsividade ao correr atrás do amor - semelhante à vista em Natasha de Guerra e Paz, na heroína de Humilhados e Ofendidos (Dostoiévski) ou na Margarida de Bulgakov. Ela é A Mulher Russa - pelo menos a mulher russa vista pelos escritores russos. E ao mesmo tempo essa impulsividade é equilibrada com um interessante senso de dever e virtude, presente em Tatiana, talvez também decorrentes dos romances que lia, e que acabam triunfando nela.
Talvez mais interessante que a história ou os personagens principais, no entanto, são os comentários paralelos que Púchkin tece para o leitor, seja pintando a natureza russa nas suas estações, seja refletindo acerca do Mundo e da Sociedade com bom (e um tanto ácido) humor.
"Eugênio Oneguin" é muito mais do que apenas uma historinha de amor.

A TRADUÇÃO

A versão que li é uma tradução de Dário Moreira de Castro Alves publicada pela Editora Record em 2010. O tradutor é um diplomata que, no decorrer de seus 41 anos de carreira, foi por um tempo o Embaixador brasileiro em Moscou. Lá, tomou contato com a literatura russa, com o profundo amor do povo russo por Púchkin, e concebeu na alma o projeto de tradução de Eugênio Oneguin para o português. Depois de aposentar-se, em 1995 pôs mãos à obra e - com a supervisão e revisão de amigos russos autoridades em Púchkin, como a professora Olga Ovtcharenko, do Instituto Gorki de Literatura Mundial - trabalhou durante dez anos até concluir o trabalho, em 2006.
No decorrer desse tempo, fez e refez quase inteira a tradução. Tanto trabalho não foi à toa: ele conseguiu passar para o português a métrica e o padrão de rimas tão especial da obra, criada pelo próprio Púchkin, e que em russo chamam de "онегинская строфа" (estrofe de Oneguin). Consiste esse padrão em uma espécie de soneto corrido sem divisão em quartetos e tercetos e com padrão de rimas abab-ccdd-effe-gg, como se pode notar na estrofe transcrita acima.
Ou seja, embora nunca seja o original, a tradução ficou digna da obra. Por todos esses motivos, "Eugênio Oneguin: um romance em versos" ganhou 5 estrelas na minha classificação. Recomendo, de verdade.



3 comentários:

  1. Sabe onde posso achar o livro em ePub ou PDF?

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  2. Uau, me deu até vontade de ler! Parabéns pela resenha, ficou maravilhosa.

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  3. Nossa, amei a resenha. Eu amo este livro. Entrei em contato com a narrativa primeiro por meio de um filme baseado na obra para fazer um trabalho da faculdade na disciplina de História da Literatura, anos depois saiu esta tradução fantástica para o português e pude ler, sou muito apaixonada pelo livro, é uma obra de arte das mais fantásticas que já vi. Eu gostaria tanto de debatê-la em um clube do livro, uma pena que o acesso às obras de Pushkin traduzidas para o português é bem difícil mesmo.

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